Uma das maiores e mais fascinantes contradições da nossa capital. Um homem que declarava não acreditar em Deus conseguiu projetar um dos espaços mais espirituais da arquitetura da nova capital.
Um cenário onde deve-se além do dogma, focar na mística do espaço, algo que Niemeyer, um mestre, dominava como poucos. A Catedral Metropolitana de Brasília demonstra como a arquitetura pode induzir um estado de consciência, funcionando de forma semelhante a um templo de iniciação egípcio.
"Renascimento pela Luz":
Niemeyer dizia que não projetava para o "Deus da religião", mas sim para o homem. Para ele, a arquitetura deveria provocar espanto e beleza. Ao projetar a Catedral, ele não buscou os símbolos clássicos (cruzes de pedra, paredes pesadas, vitrais escuros que isolam o fiel). Ele buscou a ascensão.
A sua ideologia marxista pregava a libertação do homem, e ele traduziu isso em uma estrutura que "brota" da terra em direção ao Cosmos infinito.
A jornada iniciática pode ser vista ou entendida como o coração do simbolismo esotérico da obra, uma vez que a experiência de entrar na Catedral é um rito de passagem.
● O Túnel (O "Duat" ou Mundo Subterrâneo): A entrada é feita por um corredor escuro, em declive, abaixo do nível do solo. No esoterismo e nas iniciações egípcias, isso representa a morte do "velho eu", o ventre materno ou a descida ao mundo das sombras. Nesse momento perde-se a referência do horizonte de Brasília e tende a ocorrer um momento de introspecção e silêncio.
● O Fosso e a Passagem : O trajeto subterrâneo serve como uma purificação. É o "vazio" necessário para que o impacto seguinte seja pleno.
● A Explosão de Luz (O Renascimento): Ao sair do túnel e entrar na nave central, o visitante é subitamente banhado por luz vinda de todos os lados.
Não há paredes, apenas vidro e céu. O contraste entre o túnel escuro e o interior monumental leva a uma sensação física de expansão da alma (ou da mente). É o encontro com o Aton (o sol/divindade) de Akhenaton: a luz/Luz que tudo preenche sem intermediários.
As 16 colunas curvas de concreto podem ser interpretadas, entre outras formas:
● Religiosamente : Representam mãos se erguendo em direção ao céu ou mesmo ainda, também a coroa de espinhos de Cristo.
● Esotericamente : Funcionam como uma "antena". A base circular e as colunas que se fecham no centro para depois se abrirem novamente lembram o formato de um cálice (o Graal) ou de uma flor de lótus se abrindo para o Cosmos.
Se pensarmos em Brasília como a "Nova Akhetaton", a Catedral é o seu ponto de maior voltagem espiritual. Enquanto as pirâmides egípcias guardavam o corpo para a eternidade, a Catedral de Brasília apresenta-se como a querer libertar o espírito.
Niemeyer usou a geometria sagrada. Ele sabia que o círculo (a base da catedral) representa a perfeição e a unidade. Ao colocar a entrada no subsolo e o altar banhado pelo sol, ele replicou inconscientemente (ou não) os templos solares, onde a luz/Luz é a protagonista e a razão maior da construção.
Chega a ser irônico e belo, ao mesmo tempo. o arquiteto que não acreditava no além-vida criou o portal mais significativo e perfeito para que o visitante sinta, nem que seja por um instante, que a morte é apenas um túnel escuro antes de uma Luz Maior.
"...Para encontrar a suprema realidade(Deus)...
deve-se ir mais profundamente e descobrir o Invisível nos visíveis,
o Eterno nos temporários, a Realidade nas aparências,
o Creador em todas as criaturas.
É esta a gloriosa conquista dos místicos e videntes,
como Francisco de Assis e outros
que viam a Deus em todas as suas obras."
(Humberto Rohden).
"Nós começávamos a imaginar quando é que Brasília iria surgir.
De repente, aparecia uma mancha azul no horizonte. Ela ia crescendo.
Depois apareciam os contornos e começávamos a dizer:
ali é o Teatro, lá é o Congresso, a Torre.
Brasília surgia como num passe de mágica, um milagre."
(Oscar Niemeyer)